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8 abril 2016

Braille: sinônimo de vida para muitos

Hoje, 08 de abril é comemorado o Dia Nacional do Sistema Braille no Brasil. Você sabia que o levantamento da Pesquisa Nacional de Saúde divulgado em agosto do ano passado pelo IBGE, feito em parceria com o Ministério da Saúde apontou que 6,2% da população brasileira tem algum tipo de deficiência?

 

Deficiência Visual é a mais representativa no país, pois atinge 3,6% dos brasileiros, sendo mais comum entre as pessoas com mais de 60 anos (11,5%). O grau intenso ou muito intenso da limitação impossibilita 16% dos deficientes visuais de realizarem atividades habituais como ir à escola, trabalhar e brincar, a pesquisa mostra que a região Sul tem a maior proporção de pessoas com deficiência visual (5,4%).

 

A pesquisa apresenta também que 0,4% destas pessoas são deficientes visuais desde o nascimento e 6,6% usam algum recurso para auxiliar a locomoção, como bengala articulada ou cão guia e, ainda que menos de 5% do grupo frequentam serviços de reabilitação.

 

A Deficiência Visual é a mais representativa no Brasil, pois atinge 3,6% dos brasileiros, sendo mais comum entre as pessoas com mais de 60 anos (11,5%). O grau intenso ou muito intenso da limitação impossibilita 16% dos deficientes visuais de realizarem atividades habituais como ir à escola, trabalhar e brincar e o Sul é a região do país com maior proporção de pessoas com deficiência visual (5,4%). A pesquisa mostra que 0,4% são deficientes visuais desde o nascimento e 6,6% usam algum recurso para auxiliar a locomoção, como bengala articulada ou cão guia e, ainda que menos de 5% do grupo frequentam serviços de reabilitação.

 

Por nos preocuparmos com este assunto e para comemorar esta data muito especial para vida de tantas pessoas com Deficiência Visual em nosso país, trazemos para os nossos leitores algumas informações sobre o Sistema Braille, e ainda os detalhes da entrevista realizada com a professora Sandra Mara Peralta, que há 28 anos atua com a educação de alunos cegos na cidade de Arapongas/PR.

 

O Sistema Braille

 

Sistema Braille trata-se de um processo de leitura e escrita em relevo, com base em 64 (sessenta e quatro) símbolos resultantes da combinação de 6 (seis) pontos, dispostos em duas colunas de 3 (três) pontos e é também denominado Código Braille.

 

 

 

Sistema BrailleFoto: Google Imagens

 

 

Este sistema, utilizado universalmente na leitura e na escrita por pessoas cegas, foi inventado na França, em 1825, pelo jovem cego Louis Braille que, em seus estudos, definiu a estrutura básica do sistema na qual ainda é utilizada mundialmente.

 

A utilização do Sistema Braille no Brasil pode ser abordada em três períodos distintos:

 

 

1° PERÍODO – 1854 a 1942

 

Em 1854 o Sistema Braille foi adotado no Imperial Instituto dos Meninos Cegos – conhecido hoje por Instituto Benjamin Constant – sendo assim, a primeira instituição na América Latina a utilizá-lo e ter usado outros países como exemplo, o Brasil passou a empregar na íntegra o código internacional de Musicografia Braille de 1929.

 

 

2° PERÍODO – 1942 a 1963

 

Para atender à reforma ortográfica da Língua Portuguesa de 1942, o antigo alfabeto Braille de origem francesa foi adaptado às novas necessidades de nossa língua, especialmente para a representação de símbolos indicativos de acentos diferenciais.

Destaca-se ainda a adoção da tabela Taylor de sinais matemáticos de origem inglesa, em substituição à simbologia francesa até então utilizada. A Portaria no. 552, de 13 de novembro de 1945, estabeleceu o Braille Oficial para uso no Brasil e a Lei no. 4.169, de 4 de dezembro de 1962, que oficializou as convenções braille para uso na escrita e leitura dos cegos.

Além da criação de um código de contrações e abreviaturas braille, isto veio a criar dificuldades para o estabelecimento de acordos internacionais, tendo especialistas brasileiros optando por alterar seus conteúdos em benefício da unificação do Sistema Braille.

 

3° PERÍODO – 1963 a 1995       

 

Um fato marcante é que em 05 de janeiro de 1963, foi assinado um convênio luso-brasileiro entre as mais importantes entidades dos dois países para a padronização do Braille Integral (grau 1) e para a adoção, no Brasil, de símbolos do código de abreviaturas usado em Portugal.

 

Em relação à Matemática, educadores e técnicos da Fundação para o Livro do Cego no Brasil e do Instituto Benjamin Constant, principalmente, complementaram a tabela Taylor com o acréscimo de símbolos Braille aplicáveis à teoria de conjuntos. A nível de imprensas e centros de produção de Braille, foi acordada em 1994 a adoção de uma tabela unificada para a informática.

 

Durante todo este período, o Brasil participou dos esforços para a atualização e a unificação do Sistema Braille, com destaque, em todo este período, o trabalho conjunto da, hoje, Fundação Dorina Nowill para Cegos e do Instituto Benjamin Constant, através de seus especialistas, aos quais se reuniram muitas vezes, competentes profissionais de outras importantes entidades brasileiras.

 

Entrevista

 

 

Entrevista - Sandra Mara PeraltaFoto: Ênfase Educacional

 

 

Nesta entrevista, a professora Erika Regiani, que é Mestre em Educação e Coordenadora Pedagógica do Ênfase Educacional, conversou com a Educadora Sandra Mara Peralta, especialista em Deficiência Visual, sobre os desafios de sua profissão, o Sistema Braille, o que este significa na vida de seus alunos e na sua vida profissional, dedicada há muitos anos para a educação de cegos. Confira:

 

Professora Sandra, na sua opinião, qual a importância de comemorar o Dia Nacional do Sistema Braille?

 

No dia 08 de abril comemoramos o Dia Nacional do Sistema Braille, que é, sem dúvida, uma data muito importante para todos o que utilizam esse sistema tátil de leitura e escrita, uma vez que ler e escrever é uma forma de se libertar, de sentir-se incluído na sociedade, de poder ter acesso às informações. Considero importante lembrar que o Sistema Braille foi criado por Louis Braille, cego desde os 5 anos de idade, tendo começado a idealizar o seu código ainda menino, com doze anos, a partir de uma criação de Charles Barbier, um oficial do exército francês, que era baseado em 12 pontos, feito para que pudesse se comunicar com os soldados, de forma que, se caísse em mãos inimigas, ninguém pudesse entender. Luis Braille aprimorou o código para apenas seis pontos, combinados em duas colunas e três linhas, possibilitando 63 combinações diferentes, abrangendo letras, pontuação e numerais.

 

Quando se deu o seu contato e o envolvimento com o Sistema Braille?

 

Meu contato com o Sistema Braille foi há 28 anos atrás, quando realizei uma formação docente que, na época, era denominada de Curso Emergencial de Formação de Professores de Deficientes Visuais, promovido pelo Governo do Estado, pois não haviam profissionais capacitados para atender a demanda do alunado com problemas de visão, e me conquistou de imediato, pela genialidade da criação! Desde essa época, venho ensinando pessoas cegas a ler e escrever, sendo para mim, uma grande realização profissional quando vejo a mudança de comportamento deles depois que podem realizar a leitura e a escrita.

 

Quais os recursos ou instrumentos necessários para o ensino e a aprendizagem do Sistema Braille e como eles podem ser adquiridos?

 

Para realizar a escrita com o Código Braille temos duas possibilidades. A primeira é a escrita manual, realizada com o uso de alguns instrumentos chamados: reglete, punção e sulfite 40. A outra possibilidade é a utilização de máquina de escrever e a impressora Braille, que também utilizam o sulfite 40.

Todos estes materiais podem ser adquiridos em empresas especializadas como é o caso da Bengala Branca, que fabrica e comercializa equipamentos, produtos e presta serviços de tecnologia para deficientes visuais . Com o avanço da tecnologia, contamos, ainda, com o Sistema Braille Digital em aplicativos de celulares ou aparelhos específicos.

 

Além do Sistema Braille, existem outros recursos para auxiliar a vida acadêmica, pessoal e profissional das pessoas com Deficiência Visual?

 

Hoje em dia temos os livros falados e digitais e vários aplicativos de celular, programas de computador leitores de tela, tais como o NVDA, o DOSVOX e o VIRTUAL VISION, que são muito importantes como forma de escrita e de comunicação, porém a leitura só é possível por meio do Braille, levando a criar no imaginário as imagens daquilo que está lendo, enriquecendo o vocabulário e transformando quem lê em cidadão crítico.

Além disso, outros instrumentos são essenciais, como o Soroban para a realização dos cálculos matemáticos e a bengala, utilizada como meio de orientação e mobilidade, o cão guia também é uma opção neste caso, entre outros recursos.

 

Quais as particularidades do seu trabalho pedagógico e como é desenvolvido?

 

Eu atuo na Sala de Recursos Multifuncionais (Tipo 2) para Deficientes Visuais, no Colégio Estadual Marquês de Caravelas, na cidade de Arapongas/PR. Meu trabalho é realizado conjuntamente com a professora, também especialista em Deficiência Visual, Lucimeire Toso Golas. Os nossos alunos frequentam a sala de aula comum e no contraturno estudam em nossa sala multifuncional, onde aprendem Braille, Soroban, Orientação e Mobilidade e a realização das Atividades da Vida Diária.

 

Um detalhe importante é que atendemos todos os alunos de forma simultânea, independentemente da idade ou nível acadêmico. A nossa prática pedagógica é que faz toda diferença, no cuidado com a seleção das atividades que são mais adequadas para cada aluno, de acordo com a sua idade e nível de formação.

 

Além disso, realizamos todo suporte necessário aos professores das salas de aula do ensino regular onde estão incluídos os alunos com Deficiência Visual. Este suporte inclui visitas, adaptação de materiais, transcrição das atividades e avaliações em tinta para o Braille, e outros, conforme a necessidade. Por iniciativa minha e da professora Lucimeire, os nossos alunos, frequentam academia e curso de artesanato gratuitamente, com aulas de pilates realizadas pela instrutora voluntária Cristina Artacho e aulas  de Crochê e Tricô, realizadas pela voluntária Jofersina de Paiva Alioti, uma senhora de 74 anos, muito prestativa.

 

Em relação ao mercado de trabalho para atuação específica com deficientes visuais, qual a sua percepção?

 

mercado de trabalho necessita de profissionais com formação específica para lidar com as particularidades do alunado com Deficiência Visual. Verifico alguns problemas relacionados a falta de cursos de formação, sejam cursos livres, de graduação ou pós-graduação.

Outro fator é o receio que as pessoas têm em lidar com o diferente, um desafio constante e que não é particular da Deficiência Visual, todos os dias, nos deparamos com casos, os mais distintos possíveis, de preconceito e dificuldades em relação às diferenças. Às vezes, a pessoa até tem vontade, curiosidade, mas resiste a aproximação por medo de não saber como se comportar, se comunicar ou relacionar com o deficiente.

 

Considerando a necessidade de formação de profissionais, como você percebe as pesquisas e estudos nesta área?

 

Existem inúmeros estudos que envolvem a Deficiência Visual, um exemplo disso é: se colocarmos, hoje, a palavra “Deficiência Visual” como critério de busca no Google Acadêmico, teremos mais de 60 mil resultados. O que pouco encontramos são cursos de formação, como falei. Tenho dedicado os meus estudos sobre a Deficiência Visual, mais especificamente sobre a formação de professores para essa atuação, como por exemplo, o trabalho resultado da conclusão do meu curso do Programa de Desenvolvimento Educacional – PDE, de 2010, intitulado Saberes Docentes para Inclusão de Alunos com Deficiência Visual no Ensino Regular, no qual publiquei o capítulo 2: “O Sistema Braille no Processo de Inclusão de Alunos Cegos”.

 

O material completo conta com capítulos sobre “Olhares, Saberes e Práticas sobre a Inclusão de Alunos com Baixa Visão”, de autoria da minha parceira de trabalho, a professora Lucimeire Toso Golas, e os outros, de professoras também Especialistas em Deficiência Visual, que versam sobre “Sorobã: um instrumento facilitador da construção do conhecimento dos numerais e suas quatro operações básicas” (Zumária Cézar – Londrina/PR), “Orientação e mobilidade: direito do deficiente visual e dever da escola” (Solange Gagliotti Algarte – Rolândia/PR) e “Contribuições à prática pedagógica do professor no processo de inclusão do aluno cego na rede regular de ensino” (Sandra Maria Steigenberger Fier – Rolândia/PR), todas colegas de profissão. Este material está disponível, na íntegra, no Portal Dia-a-Dia Educação.

 

Vejam relatos de alguns dos meus alunos:

 

 

 

 

Para finalizar nossa conversa, o que deixaria como mensagem aos nossos leitores neste dia tão importante para os deficientes visuais?

 

É uma pena que tão poucas pessoas tenham acesso a esse código, que embora pareça muito difícil, pode ser rapidamente aprendido por pessoas que têm a visão normal, pois estas não precisam usar o tato, e sim os olhos.

 

 

 

Ênfase Educacional
Para toda Equipe do Ênfase Educacional foi
muito importante colocar este assunto em pauta, pois,
muitas vezes, não nos damos conta que a origem deficiência
pode não ser, necessariamente, de ordem congênita
e que inúmeras doenças ou situações podem ocasioná-las,
principalmente tratando-se da Deficiência Visual.

 

Profa. Ms. Erika Regiani

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