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21 agosto 2016

Henri Wallon e as Emoções Sociais

 

As teorias de Henri Wallon contribuíram muito para a compreensão do desenvolvimento humano, suas afirmações de que as relações afetivas e emocionais da criança desenvolvem suas capacidades sócio cognitivas nos fizeram observá-las de um outro ângulo, considerando seus sentimentos, o meio em que vive e com quem/o que está interagindo.

 

Por muito tempo, especialmente em nosso país, as questões de ordem emocionais e intelectuais foram deixadas de lado em prol da conduta voltada para a higiene e cuidado, elas foram visadas por muitas instituições que lidavam com crianças ensinando-as desde o início sobre a higienização e cautela para com suas coisas.

 

No entanto, a algumas décadas, uma postura mais voltada para o cuidar e educar que envolvesse as questões emocionais, morais e éticas vieram se enraizando nas teorias, políticas e práticas que norteiam o trabalho pedagógico com crianças.Por isso, estudos sobre o pesquisador Henri Wallon cresceram e passaram a influenciar a educação e a formação de professores no Brasil.

 


 

Profa. Ms. Renata Miranda de Araújo
contato@enfaseeducacional.com.br

 

 

A base de observação dos estudos de Henri Wallon foi:

 

Foco na psicologia da criança: Identificar a origem biológica de maneira a entender como se dá o desenvolvimento;

Consideraçãoà infância: Período de vida com especificidades e características, considerando as semelhanças desta fase ao mesmo tempo que entende a criança a partir de sua individualidade;

Consideraçãoàs diferenças: Observar cada criança a partir de semelhanças que tenham e relacionar afase de desenvolvimento em que está;

Características biológicas/orgânicas: Relacioná-las com as características sociais;

Reconhecera influência de sentimentos/emoções: Elas são influentes no desenvolvimento;

Consideração àsnuances das teorias de Freud e Piaget: Por mais que fosse interacionista e tenha associado sua produção com Vygotsky, o francês conseguiu entrelaçar as pesquisas de outros teóricos às suas.

 

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A partir destas observações Henri Wallon reconheceu a unidade entre o mundo social, afetivo e intelectual no desenvolvimento do ser humano desde a mais tenra idade, assim propôs que uma pessoa é social não por causa dos fatores externos ou da força social que a influencia, mas sim pela necessidade e pelas leituras que faz internamente. Ou seja, o social desperta a elaboração, o entendimento individual e é essencial para a formação das pessoas.

 

Para que possamos nos associar melhor com a teoria walloniana é importante entender as 4 bases de sua proposta: a Afetividade, as Emoções, o Movimento e a Formação do ‘eu’.

 

Afetividade: É a maneira de identificar e demonstrar durante o desenvolvimento desejos, vontades, satisfações e insatisfações, as transformações biológicas (neurovegetativas para Wallon) têm profunda relação com a personalidade da criança.

 

Emoções: De origem orgânica, as emoções são o meio pelo qual cada pessoa se comunica consigo mesma para se conhecer. É extremamente importante para a relação entre as pessoas e o meio.

 

Movimento: É a maneira pela qual crianças expressam sentimentos/emoções, por isto se mover para a criança é um instrumento de aprendizado, socialização e comunicação consigo, com o meio e com outras pessoas.

 

Formação do ‘eu’: Descobrir ou reconhecer o “eu” depende da relação com outra ou outras pessoas. As relações, dependências, negações, imitações, manipulações e sedução para o convencimento e interação com o outro, fazem parte das descobertas e da separação entre o que é a vontade do meio social e o modo pelo qual cada pessoa percebe a si mesma no mundo.

 

Para o teórico francês há uma caminhada ascendente no progresso, em que as características biológicas dos sujeitos são mais proeminentes no inicio do seu desenvolvimento. Com o passar do tempo e a interação da criança com outras pessoas, o ambiente e o meio social passam a fazer com que ela equilibre suas necessidades biológicas e as relações externas que permeiam a vida, sendo a fase, na qual a relação sócio cognitiva predomina, flexível e variável. Ou seja, não ocorre de maneira linearPara aprofundar o assunto, indico o livro Teoria do Desenvolvimento de Henri Wallom, ele pode fornecer com detalhes as características biológicas do desenvolvimento. Então, dê uma olhada nele para saber com mais profundidade este conteúdo em especial.

 

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Durante todo o processo de crescimento, crianças e adultos precisam de momentos de crises para alçar novos conhecimentos antes de partirpara as outras fases do desenvolvimento, isso acontece por meio da leitura que eles fazem do mundo que o cerca. Sendo assim, as escolas devem criar situaçõeseducativaspara direcionar esses momentos de crise sempre respeitando uma formação integral.

 

As emoções, as interações e os movimentos têm um papel fundamental para todo o processo de aprendizagem e da vida para qualquer ser humano, algo pouco, para não dizer nada, explorado nas propostas educativas mais vinculadas à pedagogia, nomeada por Dermeval Saviani como ‘tradicional.Henri Wallonfoi, por sua vez, um dos primeiros estudiosos a considerar a integralidade corpo, emoções e relações sociais como engendrados e basilares para o processo de desenvolvimento e de aprendizagem.

 

Esta é, então, , onde ao mesmo tempo que valoriza crianças, reconhece os professores como aqueles que devem ser capazes de promover processos educativos. Por meio disso, podemos ver a vinculação com teorias de Freud e Piaget que se alinhavam a partir de organizações de fases e características, mas no caso de Henri Wallon essa disposição acontece com mais flexibilidade sobre as relações de idade e fase, até pela atualização social das características biológicas de cada pessoa.

 

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Vejamos a organização por fases proposta:

 

1 – Impulsivo-emocional

Primeiro ano de vida tem a predominância da afetividade e os sentimentos são expressos e medeiam a relação da criança com o mundo.

 

2 – Sensório-motor e projetivo

Vai até aproximadamente os 3 anos, os movimentos da criança, ou seja, coordenação motora, é ampla e fina, algo que permite sua autonomia, exploração dos espaços e manipulação de objetos que lhe interessam. Estes movimentos também permitem projetar pensamentos, isto é, pensa antes de agir e, para comunicar esses pensamentos, os projeta por meio de ações.

 

Para quem trabalha com crianças é possível perceber a associação de sentimentos presentes em suas atitudes quando elas têm algum conflito, a frustração ou a alegria em excesso fazem a criança se expressar de modo a usar sua força  motora: apertar, empurrar e morder, para solucionar um problema ou expressar sua satisfação.

 

3 – Personalismo

Dos 3 aos 6 anos a criança se percebe como parte do mundo, reconhece seu corpo e o modo como se associa e deve interagir socialmente, passa a ter seus interesses vinculados às pessoas a sua volta.

 

4 – Categoria

Os processos intelectuais dirigem o interesse da criança para as coisas, para o conhecimento e o domínio do que se passa no mundo exterior.

 

5 – Predominância funcional

Momento de (re)construção da consciência, moralidade e ética. A criança, por meio das interações sociais, conduzem seus interesses pelas pessoas que a cercam. Nesta fase há um intenso florescer e de crises existenciais, necessidade de se reelaborar no mundo devido as mudanças no corpo dadas por causa do crescimento e das transformações hormonais, bem como das novas relações sociais que se apresentam.

 

Cada fase carrega consigo os aprendizados do estágio anterior, e se seguem por meio de crises entre o que a criança conhece e o que ela precisa conhecer sobre si e sobre o mundo, sempre envolvendo necessidades físicas, emocionais e sociais que vão se tornando cada vez mais complexas. Essa alternância de interesses e necessidades recebem o nome de “alternância funcional”, sendo a afetividade e a inteligência co-dependentes, neste ponto sua produção teórica se associa com a de Vygotsky.

O livro A Relação da Afetividade com a Inteligência consegue abordar com profundidade essas fases e pode ser de grande ajuda para os interessados no assunto.

 

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Por que o professor precisa saber disso tudo?

Existem dois motivos principais para o professor considerar os estudos de Henri Wallon como importantes na prática pedagógica. O primeiro é a valorização dos sujeitos como integrais e levar em consideração emoções, afetos, inteligência, movimentos, ambiente social e outras questões. Desta forma, essa abordagem valoriza o aluno desde muito jovem como sujeito com características e possibilidades que devem ser relevantes para a aprendizagem.

O segundo motivo está associado ao primeiro quando se refere ao ser humano como um todo, esta teoria não descarta as particularidades, sentimentos e necessidades do próprio professor, que para executar um bom trabalho deve ter autonomia, capacidade de escolhas, reconhecimento afetivo e teórico sobre como e porquê está agindo. Principalmente a importância de um professor que perceba sua participação emocional, ética, moral e cognitiva no desenvolvimento de crianças, alunos, adolescentes, jovens e outros colegas professores, enquanto também é afetado por eles.

Não há uma formula mágica para a aplicação e valorização dos sentimentos das crianças nos espaços educativos, mas relevar e introduzir práticas que permitam discussões, falas, expressões pessoais, expressões artísticas, histórias e outras ações de cunho pedagógicos que valorizem sentimentos, emoções e ações que demonstrem respeito pelas diferenças, confissões, demonstrações de necessidades e tempo de aprendizagem é um bom começo.

Ficha técnica de Henri Paul Hyacinthe Wallon

 

Nascimento: 15 de junho de 1879;

Falecimento: 1 de dezembro de 1962;

Formação: Filosofia, medicina e psicologia. Também é considerado pedagogo devido suas contribuições sobre desenvolvimento infantil e educação.

Atuação: Atuou como médico na primeira guerra mundial (1914 – 1918), no campo da medicina se interessou por distúrbios psiquiátricos, especialmente em crianças. Reavaliou algumas de suas teorias a partir de experiências com soldados que desenvolveram problemas psiquiátricos depois de participarem da guerra. Henri Wallon se interessou pelos aspectos da psicologia e como se dava a organização de pessoas, mas com interesse especial por crianças com transtornos psiquiátricos.

 

 

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Referências

WALLON, Henri. As etapas da socialização da criança. Lisboa, 1953.

DANTAS, Heloysa. A infância da razão: uma introdução a psicologia da inteligência de Henri Wallon. São Paulo, Manole, 1990


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